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|   Discrepâncias nas pesquisas eleitorais 1º turno da Eleição 2018    |

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Dez
18

RIO DE JANEIRO, 7 DE NOVEMBRO DE 2018

DISCREPÂNCIAS NAS PESQUISAS ELEITORAIS

       1º TURNO DA ELEIÇÃO 2018

LUIZ CARLOS DA ROCHA

CONSELHEIRO DO CONFE(*)

1– INTRODUÇÃO

Os cenários políticos advindo das urnas em 7 de Outubro em contraposição aos cenários desenhados pelas pesquisas eleitorais no 1º Turno surpreenderam a opinião pública do país, gerando descrença, desconfiança e aprofundando o agravamento do conturbado ambiente eleitoral entre o 1º e o 2º Turno da Eleição 2018. No Sábado 6/10, véspera do 1º Turno, as pesquisas de intenções de votos não captaram grandes alterações nos cenários de Senador e Governador nos Estados, que até então vinham sendo apresentados. Na noite de Domingo 7/10, a sociedade ficou perplexa com os resultados apurados pelo TSE em todo Brasil.

Na tentativa de explicar as desordens ocorridas no cenário político de vários Estados, os comentaristas e cientistas políticos ocuparam a mídia formulando e discutindo uma enxurrada de hipóteses, quase todas focando o aspecto comportamental do eleitor. Diretores de grandes institutos de pesquisa vieram a público reforçar a equipe de analistas dos canais televisivos e se lançaram de corpo e alma no afã de esclarecer as enormes diferenças entre os cenários desenhados e a realidade das urnas. Teses óbvias como: a influência das redes sociais; a importância da Operação Lava Jato; a aversão à velha política; foram algumas dentre muitas, discutidas de forma sistemática e repetitiva na mídia em geral.

A explicação do comportamento sócio-político do eleitor, tão explorado nas análises e discussões após os resultados do TSE, é só um lado do problema, aliás, o mais fácil de ser analisado. Por outro lado, as razões que induziram os institutos de pesquisa a cometerem inúmeros e enormes erros nas intenções de voto do 1º Turno, receberam pouca ou nenhuma importância nas análises e discussões que se sucederam.

O imprevisto das urnas se deveu principalmente a quebra da expectativa dominante no país, gerada fundamentalmente pelas pesquisas eleitorais erradas. O forte sobressalto sentido em todo Brasil foi consequência do impacto causado pelos resultados, quando confrontados com os inverossímeis cenários divulgados durante todo o período pré-eleitoral do 1º Turno.

Os eleitores que decidiram o voto com base nas prévias eleitorais das últimas semanas, em especial nas pesquisas da véspera (6/10), se sentiram enganados. Os erros foram de tal magnitude que modificaram a ordem dos candidatos mais votados e alteraram as expectativas do 2º Turno dos Governadores e dos Senadores eleitos.

Concluindo, a perplexidade foi consequência do péssimo desempenho das pesquisas de intenções de votos, obviamente só revelado após a apuração do TSE.

(*) CONFE – CONSELHO FEDERAL DE ESTATÍSTICA                                                                                                                              

Quando se têm no país dois institutos hegemônicos informando intenções de votos parecidas, então os seus cenários são vistos pelos cidadãos como se fosse quase antecipação da apuração. Tal fato é reforçado pelo jargão insistentemente declarado antes da divulgação da pesquisa “A probabilidade dos resultados retratarem a realidade é de 95% com margem de erro de 2 pontos para mais e para menos”. Qualquer que seja o entendimento que o cidadão tenha da referida frase ele supõe intuitivamente, com toda razão, que se trata de um certificado de qualidade, ainda mais porque o jargão é declarado com ênfase e pompas. A sensação de crença do eleitor nas intenções de votos é finalmente reforçada com a solene revelação do número de registro da pesquisa eleitoral no TSE.

Como resultado da confusão causada pelos desacertos das intenções de votos houve expressiva perda na credibilidade dos Institutos, dos meios de comunicação, dos analistas e cientistas políticos. Além de ter abalado a confiança na ciência estatística e nos estatísticos.

Pequenas variações na margem de erro são aceitáveis e são inclusive controladas pelos métodos estatísticos, mas o tamanho e a frequência dos erros ocorridos em vários Estados nas Eleições 2018 é fato inédito. Os erros na véspera dos pleitos definida pela simples diferença Erro = Pesquisa na Véspera TSE vêm sendo registradas pelo CONFE desde a eleição 2012 e nunca foram tão grandes como as observadas em 2018. É imperioso destacar, pela enésima vez, que o intervalo de 2 pontos para mais ou para menos, nunca se aproximou do prometido 95%. O “melhor” resultado foi 37% dos casos, considerados somente os dois candidatos mais votados, índice observado na Eleição 2016 para Prefeito na capital dos Estados. Apesar disso, a ordem dos dois mais votados sempre apresentou índices superiores a 90%, mas até esse bom desempenho desabou no 1º Turno de 2018.

Ilustrando as distorções ocorridas em 2018 apresentamos as intenções de votos para Governador do Rio de Janeiro na véspera do 1º Turno segundo os institutos Ibope e Datafolha.

RIO DE JANEIRO

QUADRO 1 - GOVERNADOR DO RIO DE JANEIRO – 1º TURNO DA ELEIÇÃO 2018

Obs. Os valores do TSE foram arredondados para o inteiro mais próximo. 

2- A IMPOSSIBILIDADE ESTATÍSTICA

A grandeza dos erros ocorridos nas intenções de votos na véspera do 1º Turno da Eleição 2018 se avaliados estatisticamente é simplesmente inacreditável. Grandes Institutos com erros aproximadamente iguais, no mesmo cargo, no mesmo Estado e com entrevistas de campo num mesmo período suplicam profundas análises e discussões.

No Rio de Janeiro as pesquisas da véspera foram levantadas nos dias 4 e 5/10, o Ibope entrevistou 2.002 eleitores e o Datafolha 2.667 eleitores, ambos anunciaram margem de 2% com 95% de certeza. No Quadro 1 se nota que o tamanho do erro modificou a ordenação do 1º ao 3º lugar; o Ibope apontou: Paes, Romário e Witzel=Índio; o Datafolha indicou: Paes, Romário=Witzel e Índio, e ao final da apuração o TSE apontou: Witzel, Paes e Motta.

Na primeira coluna do Quadro 1 os valores do TSE retratam a composição porcentual dos votos válidos no Rio de Janeiro (7.642.175), segundo os candidatos mais votados. Logo seria natural supor que na véspera da eleição a chance de entrevistar um eleitor de certo candidato era igual, ou aproximadamente igual, a sua participação porcentual na população de votos válidos. Sendo assim, um eleitor do Witzel teria 41% de chance de ser entrevistado, já um eleitor do Paes teria 19% de chance, e respectivamente para os demais candidatos.

Cálculos básicos determinam a impossibilidade estatística de os Institutos captarem as intenções de votos apontadas por suas pesquisas da véspera. Por exemplo, com amostra de tamanho 2.002 numa população onde se tinha 41% de eleitores do Witzel o Ibope não poderia encontrar só 12% e nem 32% para o Paes que só possuía 19% de eleitores, tampouco Romário que tinha 9% poderia surgir com 20% na amostra. A impossibilidade estatística dos cenários, conjunto das intenções, é traduzida por uma probabilidade infinitesimal, quase Zero. No caso do Rio de Janeiro a probabilidade de encontrar o cenário divulgado na véspera do 1º Turno, tanto o do Ibope quanto o do Datafolha, é menor que −   .

Para se ter ideia da impossibilidade contida na cifra infinitesimal, basta considerar que −   é a dimensão da chance da Sena da Mega-Sena, logo encontrar na véspera do pleito os cenários divulgados no RJ seria pelo menos duas vezes mais difícil que acertar a Sena.

“A probabilidade de encontrar os resultados apontados pelas pesquisas do Ibope ou do Datafolha na véspera do 1º Turno para Governador do RJ, é pelo menos duas vezes mais difícil de ocorrer que acertar a Sena da Mega-Sena da Loteria da Caixa fazendo uma aposta com 6 números”.

3– TENTATIVAS DE EXPLICAR A IMPOSSIBILIDADE ESTATÍSTICA NO RIO DE JANEIRO.

Existem multiplicidade de enredos estatísticos e não–estatísticos que procuram explicar a impossibilidade das previsões de intenções de votos no Rio de Janeiro, a seguir elencamos os dois mais discutidos no meio estatístico, e que são usados genericamente em outros Estados.

  1. A hipótese preferida diz respeito às mudanças ocorridas no propósito dos eleitores logo após as entrevistas dos dias 4 e 5 de Outubro, conhecida como fator “onda”. Mas, se adotada essa explicação então se devem admitir movimentações bruscas nas intenções 48 horas antes da eleição. Nessa hipótese, o candidato Witzel segundo o Ibope com 12% de intenção de voto agregou mais 29% do total de votos válidos do Rio de Janeiro para chegar aos 41% do TSE. Isto é, angariou 2.216.231 novos eleitores, ou seja, acrescentou em 48 horas quase 1/3 dos votos válidos do RJ. A hipótese é contrariada pela ausência de razões que justifiquem a debandada dos eleitores de candidatos conhecidos como Paes, Romário e Indio para o candidato Witzel desconhecido na política e com 27 segundos no horário eleitoral gratuito.
  2. Outra explicação cogitada diz respeito ao erro de seleção da amostra, ou seja, na véspera do pleito a composição dos votos já era próxima da apurada na eleição, mas por falha na escolha dos entrevistados, erro no trabalho de campo, a composição na amostra se dispersou. Essa hipótese se desfaz pela impossibilidade estatística das duas empresas de pesquisa terem encontrado, ao mesmo tempo, cenários com intenções de votos muito próximos.

Na realidade a metodologia que antes apresentava margem de erro aceitável, embora não tão pequena quanto à anunciada pelos institutos, passou a ter desempenho intolerável em 2018, indicando a necessidade premente de sua reformulação.

4 – IMPOSSIBILIDADES ESTATÍSTICAS NOS DEMAIS ESTADOS.

A distorção da pesquisa ocorrida na véspera do 1º Turno para o Governo do Rio de Janeiro, apesar de ter sido a pior, não foi um caso isolado. Outros cenários de intenção de votos para Governador e Senador também apresentaram impossibilidade estatística no país. Evitando a alta densidade numérica, somente serão informado os 2 candidatos mais votados nos Quadros 2 e 3, onde os dados apresentados avaliam os cenários de Governador e Senador nos Estados divulgados pelo Ibope e Datafolha; cujas colunas serão detalhadas na sequência.

A coluna MARGEM é subdividida em TEÓRICA que significa a margem anunciada na pesquisa da véspera pelo Instituto (2 ou 3%) e a coluna REAL diz respeito à avaliação do erro observado (Erro = Pesquisa na Véspera - TSE). Quando o Instituto erra a menor em relação ao TSE, a diferença é negativa, mas para facilitar a comparação com a margem teórica “para mais e para menos” o erro é informado sempre em valor absoluto (positivo). As informações na coluna REAL seguem as seguintes convenções:

“DENTRO” significa que as intenções de votos dos dois candidatos mais votados se inseriram dentro da margem de erro prometida pelo Instituto;

“1FORA: Número” informa que só um candidato teve a intenção de voto fora da margem de erro prometida e o Número é o tamanho desse erro (absoluto);

“Valor Numérico” então as duas intenções de voto ficaram fora da margem prometida, e o valor Numérico informa o maior dos dois erros (absoluto).

Na coluna “ORDEM DOS DOIS MAIS VOTADOS” foram adotadas as seguintes convenções: “CORRETO” significa que a pesquisa informou corretamente o 1º e o 2º lugar; “INVERSÃO” houve inversão entre os dois primeiros lugares;

“1 ERRO” ou “2 ERROS” errou a ordem de um ou dos dois candidatos mais votados

QUADRO 2 - GOVERNADOR - SITUAÇÃO DA PESQUISA NA VÉSPERA DO 1º TURNO DE 2018

O Ibope atendeu 25 candidatos (2x10+5) dentro da margem de erro num total de 54 (2x27), índice de 46,3%, muito distante dos 95% prometidos. São 11 estados com cenários estatisticamente aceitáveis, incluindo Goiás, os demais 16 estados tiveram cenários ditados por IMPOSSIBILIDADE ESTATÍSTICA, ou seja, com probabilidade infinitesimal de ocorrência. Em relação à ordem dos mais votados o Ibope apontou corretamente 16 dos 27 Estados, 59,3%.

O Datafolha conseguiu 3 Estados “DENTRO” da margem de erro, 6 de 10 candidatos ou 60,0% e gerou IMPOSSIBILIDADE ESTATÍSTICA em dois Estados, já em relação à ordem indicou corretamente 40%, isto é, 2 estados dos 5 levantados.

QUADRO 3 - SENADOR - SITUAÇÃO DA PESQUISA NA VÉSPERA DO 1º TURNO DE 2018.

Para Senador o Ibope inseriu 14 candidatos dentro da margem de erro, entre os 54 mais votados, índice de 25,9% de acerto, e em relação à ordem apontou corretamente 8 estados, índice de 29,6%. Em 22 estados dominaram os cenários de IMPOSSIBILIDADE ESTATÍSTICA.

O Datafolha conseguiu atender a margem de erro de 3 candidatos em 10, ou seja 30,0 % e 4 dos 5 cenários divulgados definem IMPOSSIBILIDADE ESTATÍSTICA. Em relação à ordem só 1 em 5 ou seja 20% foi corretamente ordenado.

* Fonte - CONFE

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